segunda-feira, 1 de maio de 2017

RELEMBRANDO 2015


Em 2015 tivemos a oportunidade de mostrar algumas obras executadas com giz pastel e carvão sobre tela no CEFEC, em Itacuruçá (RJ). O link a seguir traz uma matéria sobre aquela exposição: http://canalzoiodaarte.blogspot.com.br/2015/10/experimentacoes-em-itacuruca.html.

quinta-feira, 30 de março de 2017

QUADRÍCULA: método de transporte de imagens por 'quadradinhos'

Pintor florentino do século XV. Talvez o desenho mais antigo conhecido, onde poderá ter sido utilizado o véu (quadrícula). Windsor, Royal Library.

Quadrícula: método de transporte de imagens por ‘quadradinhos’
Marcelo Amaral Coelho

O propósito deste texto é apresentar um recurso artístico que possa auxiliar na ampliação/redução de desenhos. Recurso este denominado “Quadrícula”. Algo que facilite a experiência de deslizar o lápis sobre o papel para dar forma ao desenho. O dicionário online Michaelis/uol define este recurso linear como 'quadradinhos'. Nesta perspectiva, basta traçar linhas horizontais e verticais, segundo medidas pré-estabelecidas, para que se forme a malha quadriculada destinada a auxiliar na reprodução do desenho (COELHO, 2014).
A quadrícula ou malha quadriculada pode facilitar a produção de desenhos e desenvolver a capacidade de organização espacial, percepção e concentração. O recurso permite uma proximidade com operações matemáticas. Tanto no traçado das linhas horizontais como naquelas verticais o cálculo é uma operação funcional. Por meio da quadrícula é possível reduzir ou ampliar qualquer desenho. Potencialidades que podem contribuir, em especial, à execução de um Madonnaro pelo iniciante. O recurso do quadriculado para auxiliar o artista é uma prática muito antiga.
Tal recurso é muito antigo. Tofani (1991, p. 249 – Trad. nossa) vai dizer: “o método para a ampliação era aquele velhíssimo, já em uso no antigo Egito, da quadrettatura: uma rede regular de linhas verticais e horizontais que vinham traçadas sobre o desenho preparatório, servindo a localizar vários pontos de referência sobre os quais, dilatando a dita rede, se podia reproduzir a imagem em tamanho maior”. Mais a frente (p. 20), o mesmo autor vai dizer nos anos 1700 era muito comum o uso da quadrettatura ou quadrícula.
Comentando o processo de pintura mural do antigo Egito, MORA e PHILIPPOT (2001, p. 91) reforçam uso da quadrícula em tempos antigos. Dizem eles que aqueles homens já recorriam à “(...) quadrícula que determinava as proporções das figuras e dos hieróglifos.”
Porém, nem todos os artistas fazem uso da quadrícula. Para alguns estudiosos a quadrícula é útil só para reportar imagens pequenas em grandes dimensões. Existem artistas que não a usam porque trabalham interpretando o modelo inicial e, portanto, não necessitam de uma restituição ‘fidelíssima’ da imagem a ser representada.
A execução dos trabalhos, segundo o recurso da quadrícula, pode se dar pelas seguintes etapas: 1) medir a área total do desenho; 2) O próximo passo é multiplicar essa medida pelo tamanho a ser ampliado ou dividir caso a operação seja a redução; 3) Em seguida, traçar as linhas internas obedecendo ao mesmo processo de multiplicação/divisão utilizado anteriormente. Obtendo assim, a malha quadriculada necessária tanto para ampliação quanto para a redução. O lápis deve ser usado de maneira bem suave para que não fiquem ‘marcas’; 4) Nesta etapa é recomendável observar o desenho-referência, este já sob a quadrícula, e iniciar o processo de transposição da imagem. Devendo estar atento à combinação entre letras e números, dispostos externamente ao desenho-referência, que servirão como orientação. Dessa maneira, atentando à forma contida  no quadrante A1, depois naquele A2 e assim sucessivamente será possível realizar a ampliação utilizando o recurso; 5) Feito a transposição total do desenho será necessário apagar aquelas linhas que não fazem parte da obra. Se necessário, é possível ‘reavivar’ o desenho com linhas mais definidas.

REFERÊNCIAS:
BOTTICELLI, Guido. Breve storia della pittura murale. In: __________. Metodologia di restauro delle pitture murali. Sandra e Silvia Botticelli (orgs). Centro Di. Pp. 11-22.
COELHO, Marcelo A. Oficina Identificando traços de brasilidade na obra de Vicente do Rego Monteiro: ampliando possibilidades para a prática Madonnaro. Projeto Quem somos nós: a identidade do povo brasileiro e sua brasileiridade. Escola Municipal Gilson Silva, Seropédica (RJ). 2014.
MAIA, Pedro. O caráter demonstrativo das experiências de Brunelleschi e o seu impacto na concepção e utilização de dispositivos de captura entre os séculos XV e XVII. 2011. Disponível em: http://www.i2ads.org/blog/article/o-caracter-demonstrativo-das-experiencias-de-brunelleschi-e-o-seu-impacto-na-concepcao-e-utilizacao-de-dispositivos-de-captura-entre-os-seculos-xv-e-xvii-5/. Acesso em: 30 de março de 2017.
MICHAELIS – Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/>. Acesso em: 12 de março de 2017.
MORA, Paolo e Laura e PHILIPPOT, Paul. Le grandi tappe storiche della tecnica. In: ________________. La conservazione delle pitture murali. Trad.: Bresciani S.r.l. 2ª ed. Bologna: Editrice Compositori , 2001. pp. 85-167.
TOFANI, Annamaria Petrioli. Pentimenti, metodi di trasferimento, manomissioni. In: Il disegno. Forme, tecniche, significati. Gianni Carlo Sciolla (org.). Cinisello Balsamo (MI): Silvana Editoriale, 1991. pp. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O MADONNARO E AS FORMAS DE ARTE PÚBLICA COMO PROPOSTA DE VALORIZAÇÃO DO ESPAÇO FÍSICO ESCOLAR


INTRODUÇÃO
Para o quarto bimestre do ano de 2016, com a turma 901, do CIEP Brizolão 294 Candido Jorge Capixaba, em Mangaratiba (RJ), foi elaborado um projeto que contemplasse alguns conteúdos previstos no plano de curso municipal. Dessa maneira, o referido projeto foi estruturado de forma a explorar os conteúdos da Op Art, da Fotografia e da Arte Pública.
O objetivo principal previa refletir sobre a valorização do espaço físico da escola como suporte de práticas artísticas. Como estratégia para atingir tal objetivo se buscou compreender o conceito de arte pública; identificar os elementos estéticos da Op Art; pensar a fotografia como um meio de registro que possa ter motivações estéticas.
A partir desses objetivos era esperado que os alunos entendessem o espaço físico da escola como um espaço para a arte. Assim, a partir deste novo olhar, pensar a conservação deste espaço como uma atitude responsável mediante a coletividade. A escola é um direito individual enquanto um bem coletivo. É necessário intervir para a preservação e conservação deste espaço social. Acreditando, assim, que a mudança de pensamento quanto ao espaço físico da escola contribua para a noção de pertencimento e, consequentemente, a construção da identidade e autonomia do indivíduo. Isso sem deixar de aprender e apreender sobre o conhecimento técnico da arte.

METODOLOGIA
     O projeto se desenvolveu em seis encontros que totalizaram 12 aulas. O conteúdo foi dividido em: Op Art, Arte Pública, Criação, Violência patrimonial, Fotografia e Avaliação bimestral. Todas as aulas se deram em sala de aula. Somente aquela que compreendeu a avaliação bimestral aconteceu na área externa, em consideração à prática do Madonnaro.
O primeiro encontro apresentou a Op Art como uma estética artística onde o “(...) ilusionismo característico dos trabalhos (...) transmitem ao espectador uma impressão de movimento e instabilidade” (FILHO, 2015). Trata-se de uma forma de arte que parece brincar com o olhar. As linhas e formas dão a sensação de estar em movimento. Tudo tem início com o artista húngaro Victor Vasarely que, por volta de 1930, explorou os padrões contidos em jogos de xadrez, zebras, dominós, etc. Vasarely explorou o preto e branco em suas composições. O auge da Op Art se deu entre 1965 e 1968. The responsive eye (O olhar compreensivo), exposição realizada no MoMA de Nova Iorque, foi a exposição inaugural da Op Art.
Como uma tendência da arte contemporânea se faz difícil determinar um conceito para a arte pública. Assim como o grafitti, as instalações e tantas outras a arte pública se utiliza do espaço. A cidade é o suporte. Mas também os prédios e outros espaços internos com acesso liberado ao público comportam esse conceito.

Fala-se de uma arte em espaços públicos, ainda que o termo possa designar também interferências artísticas em espaços privados, como hospitais e aeroportos. A idéia geral é de que se trata de arte fisicamente acessível, que modifica a paisagem circundante, de modo permanente ou temporário (ITAÚ CULTURAL).

É a partir de 1970 que o termo “arte pública” passa a fazer parte do vocabulário artístico. Essa vertente da arte atua para a recuperação de espaços degradados e na estimulação do debate público. A intervenção no espaço físico de acesso público pode fazer com que o próprio espectador/fruidor seja parte integrante da obra.
Num dos encontros, a partir do que foi apresentado como estética da Op Art, os alunos foram estimulados a criarem um estudo do que seria feito como produção prática ao final do projeto. Para isso foram distribuídas folhas A4. Completaram a lista de materiais o lápis e a borracha. Os estudos deveriam ser pensados em preto e branco já que para a atividade prática seriam disponibilizados giz branco e carvão.
Dentro ainda do conceito de arte pública e considerando o contexto da escola foi apresentado o conceito de violência patrimonial. O fato da exploração do espaço físico da escola permitiu uma breve reflexão sobre como os alunos usufruíam esse espaço. Nesse momento contribuiu o pensamento freiriano quanto a uma pedagogicidade do espaço. Diz Freire (1996, p. 50):

É incrível que não imaginemos (aqui Freire se refere a todos: poder público, equipe de educadores, responsáveis e educandos) a significação do 'discurso' formador que faz uma escola respeitada em seu espaço. A eloquência do discurso 'pronunciado' na e pela limpeza do chão, na boniteza das salas, na higiene dos sanitários, nas flores que adornam. Há uma pedagogicidade indiscutível na materialidade do espaço.

A reflexão foi ampliada para os tipos de violência que ocorrem na escola. Feita essa reflexão os alunos receberam uma folha A4 onde já constava o desenho da silhueta de um rosto. Naquela folha o objetivo era desenhar o retrato da violência.
Aproveitando a questão do conceito de ‘retrato’, se iniciou o encontro seguinte apresentando a história da fotografia. Desde a câmara escura ao surgimento do Iphone. A ideia foi trazer ao conhecimento dos alunos um panorama da evolução da fotografia ao longo dos tempos. Assim como refletir sobre os processos fotográficos enquanto registro ou como linguagem artística. Paralelamente se pensou a questão da imagem e suas manipulações. Estava programada um tour fotográfico pela escola, mas em virtude do comportamento inadequado com a turma tal ação não se realizou.
Como avaliação bimestral os alunos foram levados ao pátio da escola para a prática externa do Madonnaro. Ali, antes do início da atividade, receberam as orientações quanto ao procedimento técnico, a metodologia de avaliação e algumas considerações sobre o Madonnaro. Em virtude da quantidade limitada de material e o pouco tempo, os alunos foram divididos em trios. Nos grupos, tendo em mãos os estudos realizados anteriormente, deveriam escolher dentre os três qual realizar. Tanto o giz quanto o carvão foram disponibilizados segundo a necessidade dos grupos. Foi então que os trios se espalharam por uma área onde havia sombra e deram início ao processo de produção do Madonnaro. Para essa atividade contou como avaliação a aderência dos trabalhos ao estudo, a participação e o trato com os materiais/espaço físico.



RESULTADOS
     O trato com o espaço – considerando os conceitos e contextos da Arte pública, da violência patrimonial e do Madonnaro – possibilitou propor aos alunos uma nova visão sobre o patrimônio da escola. Um breve giro visual a contemplar as paredes da sala de aula permitiu (re)pensar a relação com o ambiente. A produção do Madonnaro no pátio apontou o chão da escola como um espaço para a arte. Assim, a partir deste novo olhar, foi proposto a conservação do espaço escolar como uma atitude responsável de caráter individual para com a coletividade. A escola é, portanto, um direito individual enquanto um bem coletivo. É necessário intervir para a preservação e conservação deste espaço sócio-cultural.
A mudança de pensamento quanto ao espaço físico da escola pode contribuir para a noção de pertencimento e, consequentemente, a construção da identidade e autonomia do indivíduo. Isso sem deixar de aprender e apreender sobre o conhecimento técnico da arte. Já que para a produção do Madonnaro os alunos puderam experimentar alguns processos técnicos como: teoria das cores, formas, perspectiva, materialidade, proporção, etc.
Já a fotografia participou na tentativa de formação para um pensamento de preservação patrimonial enquanto instrumento de documentação e ainda como meio de 'fixação' do Madonnaro. Afinal, bastava uma chuva ou que os outros transitassem por cima das pinturas para que deixassem de existir. Os alunos foram incentivados a registrarem seus trabalhos.

CONCLUSÃO
     Os trabalhos produzidos pelos alunos proporcionaram uma nova visão para com o pátio da escola. Aquele espaço fora contemplado como espaço de arte. O chão serviu como tela. O próprio grupo se surpreendera com a possibilidade de pintar no chão. Enquanto os alunos produziam suas obras outros tantos circulavam em torno. A oportunidade da contemplação abriu espaço para o diálogo. Observou-se que a atividade provocou interação entre os alunos. Quantos aos procedimentos técnicos houve uma superação de recursos. Alguns alunos utilizaram o barbante disponibilizado não sobre o chão como régua, mas suspenso sendo a sombra deste o fio condutor das linhas. Enfim, o projeto foi concluído tendo como resultado o chão como uma galeria de arte. Ficando o estímulo à valorização do espaço físico da escola.


REFERÊNCIAS
ASSIS, Simone Gonçalves de e MARRIEL, Nelson de Souza Motta. Reflexões sobre violência e suas manifestações na escola. In: ASSIS, Simone Gonçalves de, CONSTANTINO Patrícia e AVANCI, Joviana Quintes (org.). Impactos da violência na escola: um diálogo com professores. Rio: Ministério da Educação/Editora FIOCRUZ, 2010. pp. 41-63.

BOL. 11 fotos que contam a história do iPhone, do 2G ao 6S. 09 de setembro de 2015. Disponível em: <http://noticias.bol.uol.com.br/bol-listas/11-fotos-que-contam-a-historia-do-iphone.htm>. Acesso em: 17 de agosto de 2016.

CALDAS AULETE MINIDICIONÁRIO CONTEMPORÂNEO DA LÍNGUA PORTUGUESA. Paulo Geiger (org.). 3ª ed. Rio: Lexikon, 2011.

COELHO, Marcelo A. Madonnaro: gênero, técnica e linguagem pictórica. 2015. 167 f. Monografia (Graduação em Licenciatura em Belas Artes) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica (RJ).

ENCICLOPEDIA ITAU CULTURAL. Arte Pública. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo356/arte-publica>. Acesso em: 24 de outubro de 2016.

ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Op Art. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3645/op-art>. Acesso em: 12 de outubro de 2016.

FILHO, Antonio Gonçalves. Mostra faz tributo aos 50 anos da op art. 16 de abril de 2015. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,mostra-faz-tributo-aos-50-anos-da-op-art,1670549>. Acesso em: 12 de outubro de 2016.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa.  Coleção Leitura. 25ª ed. São Paulo (SP): Paz e Terra, 1996.

G1. Relembre a história do iPhone, o smartphone da Apple. 12 de setembro de 2012. Disponível em: <http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/09/relembre-historia-do-iphone-o-smartphone-da-apple.html>. Acesso em: 17 de agosto de 2016.

WINKEL, Sophia. A história da fotografia. Disponível em: <http://novaescola.org.br/ensino-medio/historia-fotografia.shtml>. Acesso em: 17 de agosto de 2016.

sábado, 19 de novembro de 2016

O MADONNARO E A FOLIA DE REIS: materialidades e imaterialidades

Madonnaro produzido pelos alunos (Detalhe)

Em 18 de novembro tivemos a oportunidade de trabalhar com os alunos do 8º ano, turma 801, do Instituto de Educação Dep. Luiz Pinto, em Valença (RJ), o tema MATERIALIDADES, previsto como conteúdo no Currículo Mínimo para a educação no estado do Rio de Janeiro. Assim sendo, recorrendo à contextualização, em discussão com os alunos, optamos por explorar a Folia de Reis, tradição cultural muito comum no sul do estado - e mais ainda na cidade de Valença. Lapidando mais a ideia escolhemos os instrumentos que pertencem à tradição da Folia de Reis para figurar nos trabalhos dos alunos. Dividimos a turma em grupos onde, após uma breve apresentação dos instrumentos, os alunos puderam criar seus estudos preliminares em folhas de papel A4. Antes, uma apresentação em slides trouxe ao conhecimento dos alunos a arte do Madonnaro e sua relação com outras duas técnicas de arte sobre o chão: a Infiorata e os tapetes de Corpus Christi. 

A Infiorata, assim como o Madonnaro, é uma arte nascida na Itália.Trata-se de uma tradição religiosa durante o dia de Corpus Christi onde os artistas criam um tapete contendo símbolos religiosos a partir de pétalas de flores. Essa tradição artística de gênero religioso teve início por volta de 1930 quando uma senhora resolveu por criar, sobre a pavimento da rua, uma "semplice figurazione floreale" utilizando alguns ramos de plantas (INFIORATE SPELLO, 2014). Empolgados com esta "simples figuração floreal", outros moradores e vizinhos resolveram por fazer outras imagens com plantas e pétalas de flores. Hoje em Spello, na região da Umbria, na Itália, os tapetes florais fazem parte de um prestigiado concurso.

Infiorata em Spello (Fonte: Infiorate Spello)

Em seguida, comentamos com os alunos sobre os tapetes de Corpus Christi. Esta uma tradição trazida ao Brasil ainda nos tempos da Colônia. A comemoração de Corpus Christi teve início no ano de 1246, após vários apelos de Santa Juliana, "(...) cujas visões solicitavam a instituição de uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento" (CANÇÃO NOVA). Em 1264, o Papa Urbano IV, reconheceu e incluiu a solenidade na calendário oficial da Igreja. Tinha início a tradição da procissão e dos tapetes. A materialidade dos tapetes de Corpus Christi aceita serragem, sal, flores, madeira, pedra e outras mais. "O significado do tapete é representar a entrada de Jesus em Jerusalém. Na passagem Bíblica que fala desse momento, é dito que Jesus, ao entrar em Jerusalém, foi recebido com ramos de Oliveira, que eram colocados pelo caminho, para que ele pudesse passar por sobre os ramos - por isso o domingo de ramos - mas, no Corpus Christi, se faz o tapete e o Padre, na procissão, carregando o ostensório, passa por esse caminho - os tapetes - e, somente após a passagem do ostensório - representação de Cristo - os fiéis podem pisar no tapete. Nesse dia é o único dia em que o Santíssimo Sacramento sai pelas ruas. Em dias comuns, ele é ofertado aos fiéis na missa, no momento da eucaristia" (ÉRIKA L. J.). O interessante que os alunos se dividiram quanto ao conhecimento desta tradição em Valença.

As três manifestações artísticas apresentadas aos alunos - o Madonnaro, a Infiorata e os Tapetes de Corpus Christi - foram pensadas a partir de suas materialidades. O Madonnaro traz consigo uma essência pulverulenta; a Infiorata, nas flores, reforça o aspecto temporário da obra;  os tapetes existem a partir de materiais mais "sólidos". No entanto, todas as manifestações são efêmeras - duram por um curto período. Outra particularidade que as une é quanto ao suporte: todas existem a partir do chão. Porém, é na materialidade que elas se 'individualizam'. Foi a partir daí que propomos aos alunos uma reflexão quanto à materialidade que compõem uma obra de arte. 

Foi quando fizemos o link com a arte contemporânea e apresentamos obras de artistas como, por exemplo, Nelson Lerner. Trabalhamos um momento de leitura visual tendo como referência a obra Homenagem a Fontana II, de 1967. Nela, Leirner explora alguns zíperes que, manipulados, alteram totalmente o significado e a estética da obra. O que permite supor existirem várias obras em uma só. Refletindo sobre a materialiadade colocamos aos alunos que alguns entendem o material apenas como um meio de fazer existir a obra por meio da construção de formas. No entanto, principalmente a partir do advento da Arte Contemporânea, a materialidade passou a ser também uma linguagem, a ter expressividade no discurso da obra. Quando passa a ter expressividade, o material s torna imaterial, já que transcende sua constituição física.

É quando o nosso projeto ganha um título: O MADONNARO E A FOLIA DE REIS: materialidades e imaterialidades. A partir do momento que tais formas de arte trabalham com materiais efêmeros, o que faz com que a obra exista por pouco tempo, também se constituem imaterialidade – pois apenas aqueles que estavam presentes no momento de “existência” da obra poderão guardá-la na memória. Optamos pelo Madonnaro como instrumento técnico-pedagógico dado a facilidade de acesso aos materiais. Acordamos com os alunos de trabalhar com o carvão vegetal, o giz branco e o caco de tijolo. Conseguimos na escola o carvão e os grupos ficaram responsáveis pelo giz e o tijolo. Responsabilidade esta fundamental para o desenvolvimento de uma escala de atitude no que diz respeito ao compromisso social. Uma vez que a Memória seria o legado a ser partilhado pelos alunos, a Folia de Reis foi o investimento temático. 

Esperamos a partir deste investimento temático e da prática do Madonnaro ter reforçado nos alunos a consciência sobre o uso e exploração de materiais, o vínculo com a cultura local e o gosto pelas aulas de Arte. Mais que o cumprimento de uma obrigação curricular foi objetivo nosso possibilitar que os alunos vivenciassem uma experiência que tivesse significado para eles.

REFERÊNCIAS:
CANÇÃO NOVA. A origem da Festa de Corpus Christi. http://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/origem-da-festa-de-corpus-christi/.
COELHO, Marcelo A. Madonnaro: gênero, técnica e linguagem pictórica. 2015. 167 f. Monografia (Graduação em Licenciatura em Belas Artes) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica (RJ).
INFIORATE SPELLO. Origini. 13 novembre 2014. http://infioratespello.it/myportfolio/origini/. Acesso em: 20 de outubro de 2016.
L. J., Érika. Tapetes de sal – Corpus Christi. http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4318025. 
PERIN, Natasha e VINHAS, Tânia. Tapetes coloridos marcam celebração de Corpus Christi pelo mundo. http://viajeaqui.abril.com.br/materias/fotos-tapetes-corpus-christi. 

sábado, 8 de outubro de 2016

ECLESIASTES, MADONNARO E VIDA



Em 08 de outubro realizamos uma oficina com alguns convidados que prestigiaram a exposição “Eclesiastes: a materialidade do Madonnaro”. Estiveram presentes 14 adultos e cinco crianças. Iniciamos com uma visita a exposição. Em seguida, debaixo de uma sombra gostosa da amendoeira no pátio da Casa de Cultura, conversamos um pouco sobre a técnica e as obras em exposição. Foi quando colocamos para o grupo a essência das obras. Dissemos sobre a relação do Madonnaro com a vida, no sentido que ambos são efêmeros. Daí a relação com o livro bíblico de Eclesiastes. Relatando sobre o processo de composição das obras destacamos a importância do verniz para que aquelas obras pudessem estar em exposição. Nesse momento, propusemos o verniz como metáfora da memória. Se a vida é efêmera será justamente a memória que permitirá que os momentos sejam eternos. Foi naquele território de memória, a Casa de Cultura de Itaguaí – antes a estação ferroviária –, que o Madonnaro encontrou espaço. Ao início, os participantes se mostraram um tanto reticentes. Mas, não demorou para que as pinturas fossem surgindo em profusão. As crianças aproveitaram ao máximo a oportunidade. A identidade do grupo logo se manifestou. Por se tratar de um grupo oriundo, em sua maioria, da Primeira Igreja Batista de Itaguaí, as pinturas traziam mensagens com simbologias cristãs. Também interessante foi notar que boa parte do grupo preferiu o carvão e o giz em detrimento do tijolo. Acreditamos ter sido esta oficina a primeira ação educativa relacionada diretamente com uma exposição da casa. Ao final, percebemos que cada vez mais o Madonnaro pode se constituir em um interessante suporte para se pensar a arte e a vida.