quinta-feira, 21 de abril de 2016

ARTE MARAJOARA, MADONNARO E VICENTE DO REGO MONTEIRO

ARTE MARAJOARA, MADONNARO E VICENTE DO REGO MONTEIRO:
elementos para a reflexão da própria realidade e (re)afirmação de identidade
num contexto de trocas culturais

Priscila Marcondes da Silva (Licenciatura em Belas Artes – UFRRJ)
Marcelo Amaral Coelho (Licenciatura em Belas Artes – UFRRJ)
Patrícia Karla Mendes Vieira (Licenciatura em Belas Artes – UFRRJ)

(Artigo publicado na Revista Fermentario. Nº 09, vol. 2. Departamento de Historia y Filosofí­a de la Educación. Instituto de Educación. Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación. Universidad de la República. Uruguay, 2015. ISSN 1688-6151. Disponível em: http://www.fermentario.fhuce.edu.uy/index.php/fermentario/article/view/215/271. Acesso em: 21 de abril de 2016).


Resumo
Este trabalho foi elaborado sob uma tríade: a técnica Madonnaro, a plástica Marajoara e a estética de Vicente do Rego Monteiro. Objetivamos fazer interagir conhecimentos da cultura popular brasileira e aquela estrangeira, estimulando a reflexão a partir do cotidiano, contribuindo com a construção da identidade e a criatividade dos alunos. Inicialmente apresentamos aos alunos o Madonnaro, técnica pictórica de representação de imagens sobre o pavimento. Trabalhamos a linearidade e a cromaticidade com a apresentação de referências do universo Marajoara. Os alunos tiveram a oportunidade de se familiarizar com a técnica do pastel seco, estudando obras de Rego Monteiro, inspiradas na Arte Marajoara. Foi observado que os alunos conseguiram correlacionar o imaginário criativo com os estudos das referências, refletindo a própria realidade (re)afirmando suas identidades num contexto de trocas culturais. Podendo, assim, se posicionarem como indivíduos autônomos e conscientes de sua condição social.

Palavras Chave: Arte Marajoara, Madonnaro, Vicente do Rego Monteiro.


Resumen
El trabajo fue realizado bajo una tríade: la técnica Madonnaro, la plástica Marajoara y la estética de Vicente do Rego Monteiro. Su objetivo es hacer interactuar conocimientos de la cultura popular brasileña y aquella extranjera, estimulando la reflexión desde la cotidianidad, contribuyendo con la construcción de la identidad y la creatividad de los alumnos. Inicialmente, presentamos a los alumnos el Madonnaro, técnica pictórica de representación de imágenes sobre el pavimento. Trabajamos la linealidad y la cromaticidad con la presentación de referencias del universo Marajoara. Los alumnos tuvieron la oportunidad de familiarizarse con la técnica del pastel seco, estudiando obras de Rego Monteiro, inspiradas en el Arte Marajoara. Fue observado que los alumnos lograron correlacionar el imaginario creativo con los estudios de las referencias, reflexionando la propia realidad (re)afirmando sus identidades en un contexto de cambios culturales. Con eso, pudieron posicionarse como individuos autónomos y conscientes de su condición social.

Palabras Claves: Arte Marajoara, Madonnaro, Vicente do Rego Monteiro.


Abstract:
This paper was elaborated by a triad: Madonnaro technique, a Marajoara plastic and the Vicente do Rego Monteiro esthetic. It was objectified the knowledge of the Brazilian popular culture interaction and the foreign, stimulating the everyday reflection, contributing with the identity construction and the creativity of the students. Initially it was presented the Madonnaro for the students, representation pictorial technique of flooring image. It was worked the linearity and the chromaticy with the reference of the Marajoara representation. The students had the opportunity to get familiarized with the pastel chalk, studying Rego Monteiro artworks, inspired by Marajoara art. It was observed that the students made the relation between creative imaginary and the references studies, reflecting their own reality reaffirming their identity on a context of cultural exchange. Been able, thus, to posture as autonomous individuals and conscientious of their social condition.

Keys-words: Marajoara Art, Madonnaro, Vicente do Rego Monteiro


Introdução
       O presente trabalho foi parte integrante das ações do PIBID – Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – Belas Artes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e ocorreu como uma oficina em que as atividades foram realizadas com a turma de EJA, Fase IX, da Escola Municipal Gilson Silva, em Seropédica (RJ). A visão da arte como fator de construção da identidade e da autonomia do indivíduo foi o elemento motivador para a execução do projeto. Entendendo ainda a prática artística como meio de construção expressiva e não como mero produto, que deve ter seu espaço no contexto da escola, a fim de que a educação não (re)produza seres humanos como peça de reposição para um sistema cada vez mais massificante (DEWEY apud BARBOSA, 2002).
       Partindo do pressuposto da viabilidade reflexiva e expressiva da Arte no contexto da escola, o projeto foi elaborado sob uma tríade: a técnica Madonnaro, a plástica Marajoara e estética do pintor brasileiro Vicente do Rego Monteiro. Essa tríade serviu de base para que os alunos pudessem conhecer os elementos artísticos (cor, linha, forma, etc.) necessários para a construção e a leitura de um discurso visual. Nessa oficina se objetivou fazer interagir conhecimentos de arte brasileira e aquela estrangeira – a prática italiana do Madonnaro – estimulando a reflexão a partir do cotidiano, contribuindo com a construção da identidade e estimulando a criatividade dos alunos. A interação entre obras e história, através do contato com outras realidades culturais, pode torná-los conscientes das diferentes expressões de arte e seu valor dentro das sociedades.
   Dentro dessa perspectiva se propôs conhecer a história da arte Madonnaro; estabelecer um diálogo entre a comemoração de Corpus Christi (identidade nacional) com o Madonnaro (identidade estrangeira); refletir o cotidiano através do contato com outra realidade cultural; experimentar a técnica do pastel seco; estudar os elementos da prática artística (cor, linha, forma, volume, etc.); analisar a obra de Vicente do Rego Monteiro; estimular a criação artística; produzir uma obra Madonnaro.

Metodologia
       A metodologia estabelecida para a oficina foi distribuída em três diferentes etapas: estudo temático/referencial, concepção e produção final. Juntas as etapas totalizaram um conjunto de seis aulas com 40 minutos cada uma delas. A oficina aconteceu durante o horário das aulas de arte da turma EJA-Fase IX, mediante acerto prévio com a professora regente. Num primeiro encontro foi apresentado um panorama histórico da técnica Madonnaro surgida em Veneza, na Itália, no século XVI. Preparou-se um texto de apoio tendo como referência o livro “L'arte dei Madonnari” (2000),
de Felice Naalin. Nele, o autor define o Madonnaro como: “(...) l'antica arte di stendere con le dita e il palmo della mano il gesso sull'asfalto”1. 
       O livro de Naalin trazia informações sobre as diversas tipologias de Madonne2, a origem, os procedimentos de execução e o papel social do artista. De maneira a reforçar a apresentação e chamar a atenção dos alunos foi exibido o vídeo 40º Incontro Nazionale dei Madonnari- 15 agosto 2012- Grazie di Curtatone, produzido pela italiana TV Mantova. O Festival de Curtatone foi aquele pioneiro no reconhecimento do Madonnaro como técnica artística, tendo iniciado nos anos 1970. Traçando um paralelo com o Brasil, foi feito, ainda, uma breve comparação entre o Madonnaro e a prática católica da confecção dos tapetes de Corpus Christi. Não somente pela origem religiosa e efemeridade, mas também em razão do suporte utilizado. A diferença se estabelece pela materialidade; enquanto o Madonnaro se vale da ‘planaridade’ do pastel, giz e/ou carvão, os tapetes exploram o ‘volume’ de materiais como a areia, a serragem, a pedra, etc. Lembramos também outras relações, como o costume de decorar ruas e calçadas por ocasião da Copa do Mundo. Aqui, a diferença se estabelece tanto na temática quanto na materialidade e durabilidade.
       No encontro seguinte, apresentamos aos alunos a Arte Marajoara como a produção artística das tribos indígenas da tribo de Marajó no Pará, desde muito antes da chegada dos portugueses. Ainda hoje, a cerâmica Marajoara é um produto cultural produzido pelos paraenses. Em seguida, trabalhamos com questões de desenho, focando na linearidade e na estilização formal através de referências do universo Marajoara. Tais referências foram apresentadas em Power Point. Nas projeções, os alunos puderam observar seres e objetos do mundo real simbolizados de acordo com uma cosmovisão particular. Sobre a iconografia Marajoara é preciso "(...) entendê-la em sua lógica interna como uma linguagem, usada por uma sociedade iletrada para expressar ideias cosmológicas, mitológicas, assim como para demarcar status social em determinados objetos de uso pessoal” (SCHAAN, 2003: 8).
       Em seguida, os alunos receberam folhas com imagens as quais deveriam primeiramente realizar uma cópia naturalista. Depois, o desafio era captar os aspectos formais da imagem e, por fim, com base numa análise rítmica, registrar apenas o essencial. Construindo, dessa maneira, uma estilização da imagem. Através desse exercício, os alunos puderam experimentar as possibilidades da linha e da forma a serem exploradas posteriormente em suas próprias composições.
       Num terceiro encontro, foi proposto a realização de estudos cromáticos a partir da obra do pintor pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Projetou-se por meio do Power Point apontamentos sobre a biografia do artista. Personagem importante da arte brasileira, com participação efetiva no acontecimento da Semana de Arte Moderna de 1922, Rego Monteiro buscou na Arte Marajoara elementos para sua pintura. O artista pernambucano explorou não só as cores como também a economia formal e os volumes encontrados na estética Marajoara. Gilberto Freire (1994) fala de uma adaptação do tradicional ao moderno perceptível na obra de Rego Monteiro quando este explora o relevo e a paleta reduzida de ocre, cinza e marrom presentes nas obras marajoaras. A Pietá (1924) é um claro exemplo dessa adaptação.
       Nesta aula, de maneira aleatória, foi distribuída a cada aluno uma imagem de alguma das obras de Rego Monteiro. Em seguida, disponibilizamos folhas de papel A4 em branco e giz pastel. A proposta era que os alunos desenhassem a partir das obras do pintor pernambucano, observando sempre a relação formal e a paleta de cor utilizada pelo pintor pernambucano.
       Na aula seguinte, ainda se explorou a obra de Vicente do Rego Monteiro, no entanto, nesta etapa os alunos deveriam criar suas próprias composições tendo como referência os recursos artísticos explorados por Rego Monteiro a partir do contato com a Arte Marajoara. Chamamos a atenção para o fato de que o artista explorou, segundo uma perspectiva própria, temas clássicos e também aqueles cotidianos. Interessante que essa imersão do pintor pernambucano no universo Marajoara se deu quando estava em Paris. Lá, ele participou ativamente da Escola de Paris, um movimento artístico que pretendia revisitar temas clássicos e valorizar nacionalismos 3. O que demonstra a importância de Rego Monteiro na reflexão sobre o conceito de identidade brasileira e como ele fez dialogar nas suas criações questões das artes internacionais com aquelas relacionadas à sua própria nacionalidade e motivação individual. Estimulou-se nos alunos a percepção de como o artista concretizou por meio da imagem – e não por palavras – uma ideia que ele trazia consigo. A aula foi uma forma de, antes da execução do trabalho sobre o pavimento, experimentar processos de criação artística, obedecendo assim àquela etapa de produção do Madonnaro onde se deve pensar o desenho por meio de estudos preliminares das referências.
       Após a apresentação da técnica Madonnaro, da cultura Marajoara e da obra e vida de Vicente do Rego Monteiro foi percebido que seria importante uma aula sobre a quadrícula, um método artístico muito funcional de transporte de imagens – seja para aquelas de escala reduzida como quando ampliada. O recurso do quadriculado para auxiliar o artista é uma prática muito antiga. Comentando o processo de pintura mural do Antigo Egito, disseram Mora e Philippot (2001: 91) que aqueles homens já recorriam à “(...) quadrellatura che determinava le proporzioni delle figure e dei geroglifici”4. Porém, nem todos os artistas fazem uso da quadrícula. Existem artistas madonnari não a usam em razão de trabalharem interpretando o modelo inicial e, portanto, não necessitando de uma restituição fiel da imagem.
       A introdução a este método não visou limitar a criatividade ou espontaneidade, mas mostrar que diferentes procedimentos podem ser usados de acordo com diferentes propósitos. A quadrícula, por ser um método mais rigoroso, ajuda a preservar o planejamento inicialmente estabelecido. Após um breve comentário sobre a quadrícula e sua funcionalidade, os alunos receberam o material para o desenvolvimento da atividade. Numa folha A4 constava o desenho “Menino e ovelha”5, de Vicente do Rego Monteiro, já sob os traços da malha quadriculada. A escolha da obra se deu em razão de sua estrutura linear, o que facilitaria a apreensão do conteúdo da aula. Objetivou-se que os alunos compreendessem a vantagem de recorrer à quadrícula, caso fosse necessário, de acordo com seus propósitos. Recurso ao qual poderiam recorrer para a produção final do Madonnaro.
       As aulas que antecederam à produção final foram sobre criação artística. Num primeiro encontro, em folhas de papel A4, os alunos puderam criar suas próprias composições a partir de referências próprias e aquelas apresentadas anteriormente sobre a obra de Vicente do Rego Monteiro. Pretendeu-se que pudessem trazer para as composições observadas elementos de seu cotidiano a serem (re)trabalhados sob a estética de Vicente do Rego Monteiro. Na aula anterior já havia sido pedido que os alunos pensassem durante a semana sobre o que levariam para o papel. Introduzindo o encontro propusemos a reflexão sobre a questão da identidade e da interculturalidade: o ‘Eu’ e ‘os outros’ ou a identidade como o ‘ser brasileiro’. A partir do termo ‘Intercultural’ buscamos refletir sobre a interação entre as diferentes culturas. Na segunda aula sobre criação, levamos os alunos para fora do prédio onde, em duplas, eles receberam folhas A3 e carvão para executarem suas criações artísticas. A proposta era estimulá-los a construir uma nova composição a partir de uma ‘negociação’, de um intercâmbio de vivências. Então, tendo as folhas A3 presas na parede lateral do prédio e de posse de seus desenhos feitos na aula passada, as duplas puderam criar a versão final para o Madonnaro.
       Inicialmente foi pensado como espaço destinado à produção dos Madonnari a área correspondente a uma espécie de calçamento que circunda o prédio da escola. Dentro das dependências da escola existe um espaço coberto, mas o pavimento é muito liso, o que não permite a adesão dos pastéis. Esse calçamento mede em torno de 1,00m largura. Pretende-se delimitar a medida de 1,00m ou 1,20m de cumprimento gerando um espaço de 1,00m² ou 1,20m² para a execução do trabalho. Porém, em razão da chuva, tipo de ‘imprevisto’ comum à prática do Madonnaro, optamos por realizar a atividade final em uma das salas da escola se utilizando de outro suporte que não o chão. Distribuímos folhas de papel Kraft e giz pastel aos alunos que, a partir das duplas estabelecidas na aula anterior, combinando o que haviam concebido em seus estudos preliminares, puderam produzir seus Madonnari.

Resultados e discussão
       A oficina foi pensada a partir do tema do PIBID Belas Artes: “Vivências e educação cotidianas através das formas de narratividades visuais, textuais e audiovisuais”. Então, partindo da possibilidade da narrativa visual objetivou-se fazer interagir conhecimentos de arte brasileira e estrangeira, estimulando a reflexão a partir do cotidiano, contribuindo com a construção da identidade e a criatividade dos alunos. Criando também condições para que houvesse uma participação mais expressiva dos alunos. A interação entre obras e a história, através do contato com outras realidades culturais, assim como entre si, pode torná-los conscientes das diferentes expressões de arte e seu valor dentro das sociedades.
       Foi necessário que a oficina se encaixasse no conteúdo programático da disciplina de Artes – uma vez que as aulas se deram durante o horário das aulas e não no contraturno; o que possibilitou uma grande contribuição da professora regente de Artes para que acontecesse a oficina. Adaptações e readaptações foram feitas no sentido de sintetizar o conteúdo da oficina sem que se perdesse a qualidade de ensino. Outra situação a qual foi imperativo adaptar-se dizia respeito à frequência dos alunos. A cada aula nos deparávamos com uma ‘nova turma’. Esta, uma situação peculiar do EJA, haja vista as interferências internas que agem sobre aquele público. Porém, cabe destacar que mesmo com tal dificuldade houve um pequeno grupo que esteve presente em todas as aulas.
       Os alunos se mostraram interessados desde o primeiro dia e durante as oficinas foram se desprendendo de seus conceitos pré-estabelecidos e se fazendo mais participativos nas aulas, colocando seus pontos de vista quanto às interpretações das imagens apresentadas. O desenvolvimento da leitura de imagem nesse processo de aprendizagem foi fundamental para a produção do trabalho final, porque através desse tipo de ação se prepara o indivíduo para uma espécie de decodificação da mensagem visual. E assim como se alfabetiza para a língua portuguesa, Ana Mae Barbosa (2001), por meio de sua proposta Triangular – focada no ensino da História da Arte, na leitura de imagens e no fazer artístico – afirma ser primordial a ‘alfabetização’ para a leitura de imagens. É fato que a imagem também transmite uma mensagem ao expectador visual. Em se tratando particularmente de uma turma de EJA, onde a maioria já está inserida no mercado de trabalho ou se encontra diante de algumas responsabilidades perante a sociedade, e durante sua vida já acumularam distintas situações e/ou reflexões, o uso dessa leitura seria necessário tanto para uma questão profissional quanto como um saber cotidiano. Possibilitando, dessa maneira, a construção e a decodificação de discursos visuais.

Conclusão:
          A produção das obras em Madonnaro proporcionaram, para além daquela artística, intercultural e social, uma reflexão também quanto ao patrimônio físico da escola. Quando do início dos planejamentos para a realização da oficina foi sublinhado pela direção escolar sobre a não conscientização de alguns alunos no que dizia respeito à conservação do patrimônio escolar. Eram várias as ocorrências de pichações no espaço interno. O Madonnaro permite, com sua efemeridade, intervir no espaço físico sem danificá-lo. Sendo possível propor uma atividade artística de caráter urbano, portanto próximo do grafite e das pichações, que respeitasse o cotidiano e o espaço físico da escola. Em meio a essa reflexão sobre o patrimônio físico Paulo Freire acredita numa dimensão educativa do espaço. Segundo Freire (1996) existe um “pedagogicidade” na forma como o espaço físico é tratado.
    Porém, essa dimensão se fará função educativa somente à medida que se pensar ações transformadoras. E aí, deve-se entender um prolongamento para fora dos muros da escola, chegando ao cotidiano, ao dia a dia. Algo que impulsione da passividade para a pró-atividade. Assim, o Madonnaro pode ser importante enquanto instrumento para a operação de ações transformadoras.
       A partir do momento que os alunos foram estimulados a correlacionar o imaginário criativo próprio com os estudos das referências, refletindo sobre a própria realidade e (re)afirmando suas identidades num contexto de intercâmbio cultural puderam se perceber como indivíduos autônomos e conscientes de sua condição social. Oferecendo condições de, lembrando Paulo Freire (1996), por meio da arte, transformar o suporte em mundo e a vida em existência. Sendo este um processo contínuo onde o homem é um ser histórico e inacabado, portanto, em constante aprendizado.

Notas:
1. “(...) a antiga arte de espalhar com os dedos e a palma da mão o giz sobre o asfalto”. (NAALIN, 2000, p. 34).
2. Em italiano, o substantivo feminino terminado em “-a”, quando no plural, é alterado em “-e”. Exemplo: Madonna = Madonne.
3 “O fenômeno artístico denominado 'retorno à ordem' remete ao período entre guerras na Europa. Trata-se de uma clara reação às experimentações empreendidas pelas vanguardas a partir da recuperação da dicção realista, da reabilitação da tradição e dos valores culturais nacionais” (ITAÚ CULTURAL, 2008). 
4. “(...) quadrícula que determinava as proporções das figuras e dos hieroglifos” (Tradução realizada pela pesquisa).
5 “Menino e ovelha” (Óleo diluído sobre cartão, s/d, 46 x 55 cm) é uma obra onde se destaca o desenho. A obra parece um estudo prévio para uma pintura homônima (Óleo sobre tela, 1925, 33 x 46 cm, Coleção Gilberto Chateaubriand). A cena é tomada de singeleza. O menino repousa tranquilamente recostado ao corpo da ovelha. Não existe paisagem nem linha do horizonte. Ambos parecem flutuar 

Referências:
40º Incontro Nazionale dei Madonnari- 15 agosto 2012- Grazie di Curtatone. In: <https://www.youtube.com/watch?v=j7iq4gAWSeE>. Visto em: 25 de maio de 2014. Vídeo.
DEWEY, John. Cultura e Indústria na Educação. Trad. Angela Fontes. In: BARBOSA, Ana Mae. John Dewey e o ensino de arte no Brasil. S. Paulo: Cortez, 2002.
DICIONÁRIO INFORMAL. Brasilidade. Disponível em: <http://www.dicionarioinformal.com.br/brasilidade/>. Acesso em: 26 de outubro de 2014.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL/ARTES VISUAIS. Retorno à Ordem. In: <http://www.itaucultural.org.br/>. Atualizado em 18 de fevereiro de 2008. Acesso em 06 de setembro de 2014.
FREIRE, Gilberto et al. Vicente do Rego Monteiro – Pintor e poeta. 5ª ed. Cor Editores: Rio, 1994.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. Coleção Leitura. 25ª Ed.
FONDAZIONE MIGRANTES. L'arte dei madonnari: un linguaggio estetico di religiosità popolare. In:<http://www.chiesacattolica.it/documenti/2002/10/00007196_l_arte_dei_madonnari_un_linguaggio_esteti.html>. Acesso em: 03 de junho de 2014.
LEITE, Míriam Lifchitz Moreira. Texto visual e texto verbal. In: FELDMANBIANCO, Bela & LEITE, Míriam L. Moreira. Desafios da Imagem: Fotografia, iconografia e vídeo nas ciências sociais. Campinas: Papirus Editora, 1998.
MORA, Paolo e Laura e PHILIPPOT, Paul. La conservazione delle pitture murali. Trad.: Bresciani S.r.l. 2ª ed. Bologna: Editrice Compositori , 2001.
NAALIN, Felice. Artisti si nasce. Tormento ed estasi. S. Pietro in Cariano: West Press, 2006. ___________ . L'arte dei madonnari. Le tecniche. Del segno e del colore. Milano: Giunti Demetra, 2000.
SCHAAN, Denise Pahl. A Ceramista, seu pote e sua tanga: Identidade e Significado em uma Comunidade Marajoara – XII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira São Paulo, 21-25/09/2003. Simpósio – Cultura Material e Significados Simbólicos.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

PINTURA RUPESTRE, COTIDIANO E MADONNARO




Alunos do 6º ano do Instituto Educacional Zion, em Itaguaí (RJ), durante aula em que o Madonnaro foi utilizado como instrumento procedimental de ensino artístico para abordagem de conteúdos relacionados à pintura rupestre. A aula foi realizada em 31 de março de 2016, nas dependências da escola. A atividade compreendeu o conhecimento do Madonnaro, a experimentação de materiais alternativos, a exploração de paleta cromática rupestre e a contextualização do conteúdo da arte rupestre, do próprio cotidiano e da manifestação artística de outra cultura. Munidos de cacos de tijolos, giz branco e carvão os alunos puderam criar desenhos relacionados ao seu dia a dia. Como resultado, além das imagens acima, os alunos demonstraram satisfação em realizar a atividade e surpresa quanto ao uso dos materiais.

domingo, 17 de abril de 2016

A SUSTENTABILIDADE DISCUTIDA A PARTIR DO MADONNARO



Resultado da oficina de Madonnaro com os alunos da 1ª série do Ensino Médio, turma 22.111, do Santa Mônica Centro Educacional, em Seropédica (RJ). A atividade fazia parte do projeto anual da escola, intitulado "Esporte, saúde e sustentabilidade. Movimentar o mundo, repensar as ações e preservar a vida". Ao contextualizar o projeto para a disciplina de Arte, pensamos o tema: "O desenvolvimento sustentável a partir da prática artística do Madonnaro", uma vez que o subtema geral era Crescimento e desenvolvimento sustentável. Foi quando refletimos sobre a atividade cinestésica do Madonnaro correlata ao esporte; a saúde como tema traduzido nas frutas e no gênero pictórico da natureza morta; e a materialidade do Madonnaro como pretexto para pensar a sustentabilidade. Os alunos se utilizaram de cacos de tijolos, carvão e giz branco - alguns insistiram em usar giz colorido. O resultado é este que pode ser visto acima nas imagens publicadas.

sábado, 16 de abril de 2016

FEDELTÀ


FEDELTÀ é uma obra concebida dentro dos objetivos que regem nossa pesquisa. Foi concebida a partir da exploração da materialidade do pastel e do carvão sobre a tela (tecido). Materialidade esta que dá forma ao Madonnaro, nosso objeto de pesquisa. Esta obra está fazendo parte da 2ª Mostra de Alunos de Belas Artes da UFRRJ, realizada na Casa de Cultura de Itaguaí (RJ).

quinta-feira, 31 de março de 2016

MADONNARO: mediando saberes na escola a partir do Salão Preto e Branco*


* Trabalho apresentado como comunicação oral no VIII Congresso de Pesquisa e Extensão & III Semana de Ciências Sociais UEMG – campus Barbacena. Barbacena (MG), Universidade do Estado de Minas Gerais, 2015. Os organizadores do evento ainda não deram satisfação quanto a publicação dos Anais.

RESUMO
Entre 2012/2013 fui bolsista do Programa Ciências sem Fronteiras, no curso de História da Arte, na Università degli Studi di Padova, na Itália. Em Verona, tive a oportunidade de participar de um curso na Scuola Internazionale dei Madonnari. Foi lá que tive o contato com essa técnica de pintura que remontava ao século XVI. O nome “Madonnaro” é em decorrência de aqueles primeiros artistas desenharem no chão, com materiais efêmeros como giz, carvão e cacos de tijolos, imagens da Madonna, ou seja, da Virgem Maria. Hoje, a prática deixou de ser um gênero estritamente religioso. Outros temas habitam o universo da técnica que, considerando os princípios tradicionais de pintura, se utiliza de recursos pictóricos como desenho, cor, claro-escuro e outros mais. Por se tratar de uma arte pública, feita ao ar livre, reúne ao mesmo tempo, o contexto de ateliê e galeria. É linguagem que comunica beleza, democratiza a arte e promove interação com o Outro. Conclusões estas obtidas a partir da pesquisa que culminou na monografia de conclusão de curso de Licenciatura em Belas Artes (UFRRJ) intitulada “Madonnaro: gênero, técnica e linguagem pictórica”. Após regressar ao curso de Licenciatura em Belas Artes na UFRRJ e ser selecionado como bolsista PIBID, dei início a um trabalho de investigação acadêmica e percebendo a potencialidade pedagógica do Madonnaro pensei um projeto a ser realizado com alunos do Ensino Fundamental II, do Colégio Wanderley Menezes, em Itaguaí (RJ). A proposta tinha por objetivo pensar conteúdos de arte e princípios de identidade a partir do Salão Preto e Branco, de 1954, e da prática Madonnaro. Como metodologia de trabalho optei pela pedagogia Triangular de Ana Mae Barbosa e os princípios analíticos propostos por Rudolf Arnheim. A experiência realizada possibilitou interligar conteúdos de História e Crítica da Arte, assim como, princípios técnicos de criação e execução em arte. Desmistificando, dessa maneira, os processos de concepção da imagem. Por meio da produção dos Madonnari, os participantes puderam explorar o carvão vegetal (preto) e o giz (branco) como possibilidades de criação artística. Intervir sobre o pavimento permitiu aos alunos compreender o espaço físico da escola como patrimônio a ser preservado. O contato com a técnica italiana de pintura propôs uma relação intercultural. Entender a importância do Salão Preto e Branco no cenário artístico e social brasileiro abriu caminho para a reflexão quanto à mobilidade social. Diante de tudo isso, foi possível aos alunos repensarem a si próprios como cidadãos autônomos e responsáveis inseridos numa coletividade.

PALAVRAS CHAVE: Arte Brasileira. Ciências Sociais. Educação. Madonnaro.


INTRODUÇÃO

Entre 2012/2013 fui bolsista do Programa Ciências sem Fronteiras, no curso de História da Arte, na Università degli Studi di Padova, na Itália. Em Verona, tive a oportunidade de participar de um curso na Scuola Internazionale dei Madonnari. Foi lá que tive o contato a técnica de pintura do Madonnaro, que remontava ao século XVI. O nome ‘Madonnaro’ é em decorrência de aqueles primeiros artistas desenharem no chão, com materiais efêmeros como giz, carvão e cacos de tijolos, imagens da Madonna, ou seja, da Virgem Maria.
Hoje, a prática artística deixou de ser um gênero estritamente religioso. Outros temas habitam o universo da técnica que, considerando os princípios tradicionais de pintura, se utiliza de recursos pictóricos como desenho, cor, claro-escuro e outros mais. Por se tratar de uma arte pública, feita ao ar livre, reúne ao mesmo tempo, o contexto de ateliê e galeria. É linguagem que comunica beleza, democratiza a arte e promove interação com o Outro. Conclusões estas obtidas a partir da pesquisa que culminou na monografia de conclusão de curso de Licenciatura em Belas Artes (UFRRJ) intitulada “Madonnaro: gênero, técnica e linguagem pictórica”. Após regressar ao curso de Licenciatura em Belas Artes na UFRRJ e ser selecionado como bolsista PIBID, dei início a um trabalho de investigação acadêmica e percebendo a potencialidade pedagógica do Madonnaro foi pensado um projeto a ser realizado com alunos do Ensino Fundamental II, do Colégio Wanderley Menezes, em Itaguaí (RJ). A proposta tinha por objetivo pensar conteúdos de arte e princípios de identidade a partir do Salão Preto e Branco, realizado no ano de 1954, e da prática Madonnaro.

METODOLOGIA
Como metodologia de trabalho foi escolhida a proposta Triangular de Ana Mae Barbosa – esta baseada na história da arte, na leitura de imagens e na produção artística – e os princípios analíticos propostos por Rudolf Arnheim. Como referencial ao Madonnaro recorri ao autor Felice Naalin, artista, pesquisador e professor-fundador da Scuola Internazionale dei Madonnari de Verona. A pesquisa realizada possibilitou interligar conteúdos de História e Crítica da Arte, assim como, princípios técnicos de criação e execução em arte. Desmistificando, dessa maneira, os processos de concepção da imagem. Todo o projeto foi dividido em oito encontros, correspondentes ao número de aulas obrigatórias ao quarto bimestre letivo do ano de 2014.
A primeira aula foi dedicada à apresentação do Madonnaro – “Madonnari” quando referente ao plural – os alunos receberam um texto impresso com as informações que seguem. Que técnica de pintura seria esta? Por toda a Itália observam-se artistas desenhando pelo chão. Durante o ano são realizados eventos pelo país reunindo esses ‘artistas de estrada’. A técnica é conhecida assim porque, no início, os artistas representavam com frequência a imagem da Madonna – Virgem Maria. Ao longo do tempo, o Madonnaro expandiu-se por outros caminhos. Hoje existe o Madonnaro sobre tela e também o Madonnaro anamórfico (perspectiva, ilusão de ótica) ou 3D. Pelo mundo, e não somente na Itália, se pratica o Madonnaro. Existem encontros dessa técnica, por exemplo, nos EUA e no México.
A história do Madonnaro remonta às origens do Cristianismo no que toca à temática. Numa época em que aparece nas catacumbas romanas a primeira imagem de Maria com o Menino Jesus. Ali teve início, talvez de maneira velada, o culto mariano. A partir do contato com a cultura pagã surgiram vários tipos de representação de Maria (Madonna). Com o passar dos anos, a Madonna como ideal de beleza, viria a influenciar para sempre a produção artística ocidental. A imagem de Maria, junto com aquela do Menino Jesus, a partir de 1539, com os Jesuítas, se tornaria o símbolo da fé católica. Diante de tudo isso, o ‘desenho’ da Madonna deveria ser uma cópia do original, ou seja, “(...) o primeiro retrato de Jesus de Nazaré e de sua Mãe.” (NAALIN, 2000, p. 26)
Enquanto técnica, o Madonnaro surge no século XVI, em Veneza (Itália). Por essa época se tem notícia de El Greco como um madonnaro. Artistas do Renascimento como, por exemplo, Rafael e Michelangelo eram as referências escolhidas para figurar nas ruas e calçadas. Os madonnari são chamados de ‘artistas de estrada’ por não terem local fixo para executarem seus desenhos. Já naquele tempo iam pelos santuários a “(...) reproduzir as obras de Rafael ou de Michelangelo ou mais simplesmente o aumento de qualquer imagem reproduzida em ‘santinhos’” (NAALIN, 2000, p. 18). Viviam das ‘ofertas’ dadas por aqueles que passavam para lá e para cá.
O Madonnaro é uma obra pública. Enquanto arte pública ele promove o diálogo e a interação entre o artista e o público. O que possibilita ao Madonnaro ser considerado uma linguagem. Por tradição é feito sempre ao ar livre. Isso o torna efêmero, ou seja, não possui durabilidade. Existe apenas no momento de sua criação. Logo é “(...) anulado pela primeira chuva ou pelos passos dos apressados pedestres” (NAALIN, 2000, p. 40). Por outro lado, o fato de não ser uma arte durável, permite que o Madonnaro seja executado nos mais diversos lugares sem sujar ou danificar o local. O Madonnaro é uma arte que dialoga perfeitamente com o espaço físico (escola, casa, prédios, calçadas, etc.).
O procedimento de execução de um Madonnaro é bem simples e particular. Porém, Naalin (2000) aponta algumas etapas no sentido de orientar os primeiros traços daqueles que se aventuram na prática. Assim, o aspirante deve ter em mãos uma referência pré-selecionada para um estudo estrutural (Escolha do desenho; cópia num papel; observação da estrutura linear e das cores...); em seguida, ele deve observar o pavimento, verificando a existência de buraco ou irregularidades, eliminando gomas de chicletes, evitando áreas com marcas de graxas ou outro resíduo químico; depois da escolha do pavimento se passa à demarcação a área (quadrado/retângulo); a realização de uma quadrícula (dividir espaços com ‘cruzes’ até formar uma malha) tanto no esboço em papel quanto no espaço demarcado pode ajudar na concepção da obra; o esboço do desenho pode ser feito com giz claro e linhas bem suaves; finalizado o esboço e definido a estrutura do desenho é possível marcá-lo com linhas mais firmes; por fim, o aspirantea artista madonnaro pode aplicar as cores. Vale lembrar que os primeiros Madonnari eram feitos com carvão, cacos de tijolo e giz.
Na aula seguinte, que resolvi denominar Madonnaro Livre, a intenção era que os alunos experimentassem a materialidade do carvão e do giz branco, além de explorar o suporte. Eles foram levados ao pátio da escola, localizado em uma área coberta, onde receberam os materiais e de maneira livre puderam desenhar pelo chão. Na verdade, a aula não transcorreu de maneira tão livre, haja visto que na aula anterior já fora comentado sobre o processo de execução de um Madonnaro.
Em um momento posterior se pensou um breve panorama histórico sobre o Salão Preto e Branco. Qual a importância daquela exposição? Quais artistas participaram do evento e foram fundamentais no desenvolvimento da arte moderna brasileira? Qual a proximidade da proposta do Salão de 1954 para com os objetivos pensados dentro do projeto Madonnaro? Como parte dessa contextualização se pretendeu identificar e estimular as possibilidades de criação e expressão a partir do preto e do branco enquanto recurso cromático. Iniciando assim, a formação de um pensamento artístico para a produção final do Madonnaro. Novamente foi passado aos alunos um texto impresso com as informações que seguem.
            O III Salão Nacional de Arte Moderna (1954) veio a consolidar uma ideia já proposta pelo arquiteto Lucio Costa, em 1931. Como diretor da ENBA (Escola Nacional de Belas Artes), Lucio Costa tinha a ideia de consolidar a arte moderna no Brasil. Enquanto diretor daquela instituição de ensino tratou de contratar professores com pensamentos modernos, além de rever a clássica Exposição Geral de Belas Artes e os prêmios de viagem ao exterior.
Assim, em 1933, a Exposição Geral de Belas Artes passava a se chamar Salão Nacional de Belas Artes. Na década de 1940, criaram-se duas divisões internas no Salão de Belas Artes: Moderna e Geral. O ano de 1951 marcaria a divisão definitiva. Organizou-se, então, o I Salão Nacional de Arte Moderna. O Salão Preto e Branco, a 3ª edição do SNAM, desempenhou um papel social de protesto contra a má qualidade das tintas nacionais e também contra as altas taxas impostas às tintas importadas. Aqueles artistas se mobilizaram e divulgaram um 'manifesto'. Nele estava escrito:

Nós, os artistas plásticos abaixo-assinados, apresentaremos no próximo Salão Nacional de Arte Moderna, a se realizar de 15 de maio a 30 de junho deste ano, os nossos executados exclusivamente em branco e preto.
Esta atitude será um veemente protesto contra a determinação do governo em manter proibitiva a importação de tintas estrangeiras, materiais de gravura e escultura, papéis (sic) e demais acessórios essenciais ao trabalho artístico; proibição esta que consideramos um grave atentado contra a vida profissional do artista contra os altos interesses do patrimônio artístico nacional. (abril de 1954)” (FERREIRA apud LUZ, 2010, p. 92).
           

A 'economia' do preto e branco enriqueceu a cultura brasileira a partir do viés social e artístico. A arte fora instrumento para o estabelecimento de uma mobilização com reflexos na sociedade. Da mesma maneira, era desejo que a experiência com o carvão e o giz branco enriquecesse a cultura pessoal de cada aluno. Enriquecimento esse que contribuísse para sua autonomia. Participaram daquela mostra organizada pelos pintores Iberê Camargo, Djanira e Milton Dacosta artistas como: Renina Katz, Sergio de Camargo, José Pedrosa, Carlos Scliar, Maria Leontina, Cândido Portinari, Aldemir Martins entre outros.
            Quanto aos procedimentos técnicos se ressaltou que o preto, o branco e o cinza poderiam ser considerados “tons” – dadas suas características acromáticas (mais adiante Klee tratará do assunto). Sendo possível, então, se estabelecer um contraste de intensa polarização entre eles. O branco num extremo e o preto no outro extremo. O ponto de encontro entre os pólos geraria o cinza. Com base nessa característica de neutralidade cromática e nas referências escolhidas a criação do Madonnaro deveria atentar à divisão de áreas. O cinza deveria ser observado como tom médio oferecido pelo próprio pavimento. As formas recortadas foram exploradas para dar corpo às imagens. Essa divisão de áreas também destacaria o uso de linhas. Enquanto o claro-escuro gera gradações, a forma recortada que delimita o espaço e destaca uma espécie de ‘linha de contenção’.
Para o desenvolvimento do processo prático de criação foram necessárias duas aulas. Mais uma vez recorri ao texto impresso como forma de comunicação sobre o assunto. Qual a diferença entre cópia e criação? A criação é transformar coisas em imagens guardando “um mínimo de aspectos estruturais” (configuração) e muita imaginação (formas). Essa imaginação é “(...) a descoberta de uma nova forma para um conteúdo velho (...). A imaginação visual é um dom universal da mente humana, (...). Ocasionalmente são ajudadas observando outras, mas essencialmente agem por conta própria.” (ARNHEIM, 1980, p. 132) Arnheim destaca a importância da referência. A potencialidade criativa que o ser humano traz dentro de si pode ser viabilizada por meio da observação da realidade e estudo da referências. A criação é invenção; a cópia é mera repetição.
Como acontece o processo de criação de um desenho, pintura ou qualquer outra obra de arte? Não existe uma receita para a criação; ela acontece naturalmente. Mas, há alguns procedimentos que podem auxiliar na criação artística. Procedimentos estes, não somente práticos, mas também aqueles de reflexão e pesquisa. Sendo assim, para criar um trabalho artístico, se deve pensar num tema, pesquisar referências e só então partir para os estudos/esboços. Nesta última etapa é que se deve prestar atenção a alguns elementos internos da obra de arte. São eles: equilíbrio, configuração, forma, espaço, luz e cor.
O primeiro passo é pensar em um assunto. Pode ser um sentimento, um esporte, uma releitura artística, etc. A pesquisa de referências é o passo seguinte. Aqui se pode recorrer a fotografias, recortes de jornais, palavras, imagens de outras obras de arte e etc. É válido lembrar que referência não é cópia. As imagens recolhidas devem servir como ponto de partida para a criação e não uma fonte de decalque.
Definido o tema e recolhidas as referências é urgente passar à etapa de estudos por meio de esboços. Várias possibilidades podem ser exploradas. Os estudos podem ser feitos sem preocupação com detalhes. Devem servir para estabelecer as noções gerais da composição. É a hora de explorar as várias possibilidades de transformação do assunto em imagens. Durante esse processo se faz necessário estar atento a como trabalhar alguns elementos próprios da criação artística, bem como estar aberto a qualquer ‘imprevisto’ que possa lograr inesperados resultados a enriquecer o resultado final.
“A experiência visual é dinâmica”, escreve Arnheim (1980, p. 04). Embora se trate de formas estáticas de representação existe movimentação visual no interior de algumas obras de arte. Podemos chamar essas movimentações de tensões, o que equivale aos ritmos de uma música. Deve-se compreender a diferença entre o centro geométrico e o centro ótico. Entendido isso é possível deslocar no espaço pictórico aquilo que é principal na composição da imagem. Desse modo, criando uma agradável e desafiadora estrada para a contemplação da obra. O que facilita a integração entre as partes e a totalidade da composição.
Enxergamos primeiro o geral para somente depois nos determos aos detalhes. Escreveu Arnheim (1980, p. 39): “A visão atua no material bruto da experiência (...).” Acrescenta ele que uma das formas de configuração é aquela em que “determina-se a forma física de um objeto por suas bordas (...).” (Idem) Outra forma de configuração é aquela que podemos chamar “expressiva”. A configuração expressiva cabe em outra definição proposta por Arnheim, ou seja, aquela em que se percebe um “(...) eixo principal característico que em realidade não existe no objeto.” (Idem, p. 40) O artista mantém a estrutura do objeto, mas usa de liberdade para ‘delineá-lo’.
A forma se diferencia da configuração pela ‘aparência’. Enquanto a configuração existe inteira, a forma pode ser ‘mutilada’. Trago como exemplo, o pescador de pé no barco estampado em xilogravura por Goeldi (Chegada do barco, s.d), representado dos joelhos para cima. Justamente os pés não podem ser vistos. A configuração geral abarcaria um único ‘contorno’ para o barco, os remos e os pescadores. As formas é que vão emancipar os objetos. Sendo assim, podem existir várias formas dentro de uma configuração.
Por sua vez, as linhas vão organizar os espaços formais dentro da área do suporte. Vários podem ser os tipos de linhas: reta, vertical, horizontal, etc. Existindo a possibilidade de se fazerem evidentes ou não; as ‘linhas de contenção’ podem estar ‘visíveis’ ou não no delineamento das formas ou áreas de cor. Ainda e termos de organização espacial, numa imagem dividida horizontalmente, a parte inferior tende a se aproximar enquanto a superior se distancia. Como outro recurso, as formas menores e estreitas podem ser captadas pela visão como figura e aquelas largas e maiores com fundo. A perspectiva é outra forma de interferir na relação espacial.
Vários estudiosos criaram teorias sobre o estudo da cor. O pintor suíço Paul Klee elaborou a “Teoria da Totalidade Cromática”, dividindo as cores por ‘grupos’. O eixo vertical central apresentava “(...) a escala de valores de claridade acromáticos desde o branco mais claro na parte superior até o preto mais escuro na parte inferior.” (ARNHEIM, 1980, p. 336) Nesta escala três são os pontos fundamentais: o preto, o branco e o cinza. A característica ‘acromática’ é justificada pela relação de luminosidade; o branco é a própria luz e o preto a ausência de luz. O preto e o branco também carregam valores simbólicos. O pintor Van Gogh os via como expressão do inverno. Sob outras perspectivas, a cor pode atuar na percepção de espaço aproximando (cores quentes) ou distanciando (cores frias)
São estes alguns procedimentos que podem auxiliar no processo de criação de uma imagem artística. Como foi dito no início, não são regras, pois, a criação é algo muito individual e dinâmico que transborda para além da razão. Tais procedimentos funcionam como orientação. O intuito era que os comentários sobre configuração, espaço, forma, etc. pudessem ao menos servir como matéria de conhecimento para a formação de um pensamento artístico. Pois estes procedimentos podem não somente contribuir para a criação artística, mas também facilitar a leitura de uma obra de arte.
Pensei também uma aula sobre a Quadrícula. O propósito dessa aula era apresentar um recurso artístico que pudesse auxiliar na ampliação/redução de desenhos. Não como obrigatoriedade, mas sim como opção. Recurso este denominado “Quadrícula”. Algo que facilitasse a experiência de deslizar o lápis sobre o papel para dar forma ao desenho em maior ou menor escala. O Dicionário Online Michaelis/UOL define este recurso linear como 'quadradinhos'. Nesta perspectiva, traçando linhas horizontais e verticais, segundo medidas pré-estabelecidas, é possível obter a malha quadriculada destinada a auxiliar na reprodução do desenho. Um texto foi elaborado a fim de compartilhar com os alunos o que fora pesquisado.
            A quadrícula ou malha quadriculada pode facilitar a reprodução de desenhos e desenvolver a capacidade de organização espacial, percepção e concentração. O recurso permite a proximidade com operações matemáticas. Tanto no traçado das linhas horizontais como naquelas verticais o cálculo é uma operação funcional. Por meio da quadrícula é possível reduzir ou ampliar qualquer desenho. Potencialidades que podem contribuir, em especial, à produção do Madonnaro quando se inicia na técnica. Este recurso é uma prática muito antiga. Comentando o processo de pintura mural do Antigo Egito, Mora&Philippot (2001) apontaram que aqueles homens já recorriam à quadrícula como recurso para a proporção das figuras e hieroglifos. Porém, nem todos os artistas fazem uso da quadrícula. Estes não a usam porque trabalham interpretando o modelo inicial e, portanto, não exploram a restituição ‘fiel’ da imagem.
            A fim de explorar o recurso da quadrícula, dentro dos objetivos da aula, oferecemos uma folha contendo uma imagem a ser ampliada. A partir daí, apresentamos aos alunos as seguintes etapas: 1) Observando o exemplo contido na folha, os alunos deveriam ‘medir’ a área total do desenho; 2) O próximo passo seria multiplicar essa medida pelo dobro – pois é o máximo de espaço permitido na folha A4; 3) Em seguida deveriam traçar as linhas internas obedecendo ao mesmo processo de multiplicação utilizado anteriormente, ou seja, 2:1. Obtendo assim, a malha quadriculada necessária para a ampliação. Aqui os alunos deveriam utilizar o lápis de maneira bem suave para que não ficassem ‘marcas’ no papel; 4) Nesta etapa, os alunos observariam o desenho-referência, este já sob a quadrícula (1:1), e iniciariam o processo de transposição ampliada da imagem. Devendo eles estar atentos à combinação entre letra (vertical) e números (horizontal), dispostos externamente ao desenho-referência, que serviriam como orientação. Dessa maneira, atentando à forma contida no quadrante A1, depois naquele A2 e assim sucessivamente seria possível realizar a ampliação utilizando o recurso; 5) Feito a transposição total do desenho era necessário apagar aquelas linhas que não faziam parte da obra. Se necessário poderiam ‘reavivar’ o desenho com linhas mais definidas.
Produzindo um Madonnaro. Nesta aula, os alunos deveriam executar o Madonnaro a partir dos estudos realizados em sala durante as aulas de Criação. Fora da sala de aula, no pátio da escola, em uma área coberta, os alunos executaram seus trabalhos. A área foi dividida em quadrados medindo cerca de 1,00m x 1,00m. Cada aluno pode ocupar um desses espaços. Em seguida, receberam o carvão e o giz branco para a execução do Madonnaro. Depois de breves orientações quanto à utilização do material, observação do estudo que tinham em mãos e cuidado para não obstruir ou danificar o trabalho do colega – já que estavam um ao lado do outro – os alunos puderam dar início ao processo produtivo do Madonnaro.
Por fim, a oitava e última aula. A avaliação bimestral, etapa obrigatória dentro do Projeto Político Pedagógico da escola, foi explorada não somente para sondar os conhecimentos adquiridos pelos alunos, mas também como instrumento de pesquisa quanto ao projeto que empreendemos. Sendo assim, elaboramos uma avaliação com base nos textos oferecidos aos alunos e nas experiências vivenciadas durante o projeto.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
A avaliação bimestral foi pensada como um instrumental para avaliação não apenas no que diz respeito ao sistema de notas, mas também como indicativo do que significou para os alunos o contato com o Madonnaro. Então foi a partir das respostas observadas naquele instrumental que levantei alguns resultados que enriquecessem a discussão quanto ao presente trabalho. Aquilo que relato abaixo foi apurado tendo como base a resposta dos alunos à seguinte pergunta: O que significou para você produzir uma obra em Madonnaro? Mediante ao que se pode observar na avaliação, de antemão, foi possível perceber que os alunos ficaram bastante impressionados com a efemeridade do Madonnaro. Disseram sobre outras coisas, mas volta e meia tocavam na questão da pouca durabilidade da obra madonnara.
Ao trazer para os alunos a história de uma técnica pictórica até então desconhecida, além do conhecimento intelectual, tal atividade possibilitou uma experiência intercultural. Um aluno do 8º ano revelou: “Foi uma aula muito interessante, porque nunca tinha ouvido falar nessa obra e isso significou muito, foi uma aula muito agradável.” Outro aluno da mesma turma opinou: “Significou pra (sic) mim aprender mais sobre outra cultura saber mais sobre coisas é sempre bom”. Ao que um terceiro aluno, este do 7º ano, declarou: “Muito interessante e divertido fica (sic) fazendo desenhos no chão. Desenhar oque (sic) você quiser, mais (sic) o triste é saber que um dia vai desaparecer.” Um aluno do 7º ano, levantando a questão da obra como produto, deu a seguinte declaração: “Pra (sic) mim é uma coisa muito linda de se fazer, mais ao mesmo tempo não é legal porque ela não dura, agente (sic) não pode levar para casa, como um quadro qualquer. Mas é uma coisa muito bonita. E eu adorei a experiência.” Como dito antes, a efemeridade parece ter impactado os alunos. Houve até quem comparasse tal efemeridade à transitoriedade da vida: “Significou bastante coisa a arte madonnaro nos mostra que tudo é passageiro, na hora sua obra te passa o que você quer sentir, logo após você vê que sumiu, que nada é eterno... Esse estilo artístico é até uma boa lição de vida”, escreveu um aluno 8º ano.
A experimentação dos materiais proporcionou uma experiência ímpar aos alunos, como se desprende dos comentários a seguir. Um aluno do 6º ano revelou: “Muito interessante, porque eu nunca fiz nada igual. Eu pensava que o carvão só servia pra (sic) fazer fogo.” Seu colega de turma, destacando o desgaste físico requerido com a técnica, revelou: “Eu gostei muito, e sei que é uma técnica barata e tem como fazer em casa, o melhor é que é bem fácil de fazer e podemos fazer em casa sem nenhuma preocupação. A única coisa que eu observei é que machuca muito a coluna e os joelhos, é necessário tem (sic) bom porte físico.” Um aluno do 7º ano vibra com a possibilidade do contorno e o alcance da melhor definição do desenho: “Bom, achei bem interessante porque nós usamos giz e carvão. E os desenhos ficam muito interecentes (sic) quando damos o contorno com o giz e depois pintamos com o carvão a parte que desejamos.” Outro aluno do 7º ano: “Foi legal utilizar instrumentos bobos com o chão o giz e o carvão. Pintar o chão da escola também foi legal.” Já para um aluno 9º ano “significou nada mais nada menos do que se expressar apenas com o carvão e o giz mesmo sabendo que uma chuva ou até mesmo os ‘passos de pessoas’ poderiam apagar.”
Refletir sobre o Salão Preto e Branco de 1954 possibilitou trabalhar com os alunos a força da mobilização. Ao organizarem aquele evento os artistas queriam mais que uma exposição de obras de arte. Almejaram uma mobilização para protestar contra os altos valores dos impostos sobre a importação de tintas pensando em se fazer ouvidos. Da mesma maneira trabalhei com os alunos a necessidade da mobilização como forma de discurso social. Discurso que unifica individualidades sem fragmentar autonomias. Assim, se algo na escola não está indo bem, os alunos podem se mobilizar para o diálogo com a direção. Ainda refleti com eles a importância de pensar o protesto pacífico que enriqueça, acirre debates em torno de questões coletivas sem causar, no entanto, destruição ou violência.
Enquanto procedimentos de criação cada uma das turmas do Ensino Fundamental II trabalhou com um artista específico relacionado ao Salão Preto e Branco de 1954: Milton Dacosta (6º ano); Renina Katz (7º ano); Iberê Camargo (8º ano); e Oswaldo Goeldi (9º ano). A partir de análises das obras desses artistas se pode explorar as formas 'recortadas', a linha 'econômica', a composição simples e a 'proximidade' temática com o cotidiano dos alunos. O fato de estarem iniciando o contato com o Madonnaro requereu como experimentação formas menos complexas, sem 'passagens' tonais ou desenhos 'renascentistas'. Os estudantes tiveram acesso a três imagens dos artistas correspondentes à sua turma. Mediante elas, observando-as com cuidado, puderam compor uma nova imagem a partir de seus elementos formais internos e estilo. Foi a partir dessa nova obra que eles realizaram seu Madonnaro final no pátio da escola. A idéia era possibilitar a vivência dos conteúdos procedimentais previstos nas linhas que desenham nossa Educação, quais sejam: conceituais, atitudinais e procedimentais.
Ainda foi lembrado a questão da preservação do patrimônio. Eis o que disse um aluno do 6º ano: “Eu gostei de produzir madonnaro, porque não acaba com o nosso pratimônio (sic), ou seja, o artista produz a obra, as pessoas gostam e depois quando ninguém mais querer (sic) ver todo mundo passa em cima ou chove, desaparece... E assim não fica que nem pixação (sic).” Contra a efemeridade um aluno do 7º ano sugeriu perpetuar a obra em uma fotografia:  “Significou algo que não dura, por isso acho melhor, quando você acabar de fazer o madonnaro tire uma foto. Porque se não (sic), não irá valer a pena fazer o madonnaro.” Cabe ressaltar que vários alunos utilizaram seus celulares para registrar os trabalhos finais.
A realização da aula fora do ambiente da sala foi lembrada por alguns alunos. Um aluno do 8º ano confessou: “Foi bem legal, pelo fato de ser diferente e a aula também foi bem criativa sendo lá fora, achei uma técnica legal mais que podia durar mais.” No que um colega de turma reforça: “Foi muito legal, pois a turma saiu da sala e desenhou em um espaço externo, saindo do tradicional. A pena é que o madonnaro durou pouco.” Parece que a prática Madonnaro contribuiu para elevar a auto-estima dos alunos. O aluno do 9º ano arriscou: “Significou muito pra mim porque foi legal reproduzir um desenho que eu criei lá fora para todos vêem e essa técnica é legal por isso.”

CONCLUSÃO
Por meio da produção dos Madonnari, os participantes puderam explorar o carvão vegetal (preto) e o giz (branco) como possibilidades de criação artística. Sem contar que diante das limitações orçamentárias e financeiras se trata de um material econômico e acessível. Intervir sobre o pavimento permitiu aos alunos compreender o espaço físico da escola como patrimônio a ser preservado. O contato com a técnica italiana de pintura propôs uma relação intercultural. Entender a importância do Salão Preto e Branco no cenário artístico e social brasileiro abriu caminho para a reflexão quanto à mobilidade social. O que reforça a força do Madonnaro enquanto instrumento para práticas educativas.
Mais que isso, o Madonnaro é uma estrada para se pensar soluções e formas de discurso através dos elementos da arte. Por meio do Madonnaro podemos ‘falar’ o que pensamos ou sentimos. A cor, a linha e a forma são como as palavras que pronunciamos. Saber explorar tais elementos é como articular um texto escrito ou um discurso falado. Ainda, a experiência vivenciada através do projeto no Colégio Wanderley Menezes permitiu concluir que a técnica pictórica do Madonnaro se mostrou interdisciplinar. É possível refletir sobre a arte, a história, a matemática... e a vida. Diante de tudo isso, foi possível repensar a si próprio como cidadão autônomo e responsável inserido numa coletividade. Por isso, o Madonnaro se mostrou uma técnica pictórica de amplas possibilidades pedagógicas para a mediação de saberes.

REFERÊNCIAS:
ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. Trad. Ivone Terezinha de Faria; supervisão editorial de Vicente di Grado, com a participação de Emiko Sooma. S. Paulo: Pioneira; Ed. da Universidade de São Paulo, 1980.

BARBOSA, Ana Mae. A importância da imagem no ensino da arte: diferentes metodologias. In: _________. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva, 2001. Disponível em: <http://repep.fflch.usp.br/sites/repep.fflch.usp.br/files/Ensino%20da%20Arte%20BARBOSA_A.pdf>. Acesso em: 27 de julho de 2015.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: arte / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC / SEF, 1998.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998.

COELHO, Marcelo A. Madonnaro: gênero, técnica e linguagem pictórica. 2015. 167 f. Monografia (Graduação em Licenciatura em Belas Artes) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica (RJ).

DICIONÁRIO INFORMAL. Quadrícula. Disponível em: <http://www.dicionarioinformal.com.br/quadr%C3%ADcula/>. Acesso em: 22 de outubro de 2104.


LUZ, Angela Ancora da. A XXXVIII Exposição Geral de Belas Artes e sua significação para a construção da modernidade no Brasil_ o Salão de 31. In: Oitocentos_ Arte Brasileira do Império à República – Tomo 2. Org. Arthur Valle; Camila Dazzi. Rio: EDUR-UFRRJ/DezenoveVinte, 2010. 1 Vol.

MORA, Paolo e Laura e PHILIPPOT, Paul. La conservazione delle pitture murali. Trad.: Bresciani S.r.l. 2ª ed. Bologna: Editrice Compositori , 2001.

NAALIN, Felice. L'arte dei madonnari. Le tecniche. Del segno e del colore. Firenze, Itália, Giunti Demetra, 2000. Disponível em: <https://books.google.com.br/books>. Acesso em: 03 de novembro de 2014.

O Renascimento. Disponível em: <http://www.chinitarte.net/arte/histo7.html>. Acesso em: 14 de novembro de 2014.


domingo, 22 de novembro de 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ALGUMAS OBRAS EM EXPOSIÇÃO

Algumas das obras expostas em "EXPERIMENTAÇÕES: A materialidade do Madonnaro", mostra que fica no Centro Ferroviário de Cultura de Itacuruçá, na Costa Verde do Rio de Janeiro até o dia 04 de dezembro. A entrada é gratuita!


"TRINDADE" (2015). Giz sobre lona de algodão.


"CRUCIFICAÇÃO" (2015). Giz sobre lona de algodão.


"NOIVOS" (Homenagem a Mestre Vitaliano, 2015). Giz sobre lona de algodão.