Blog destinado a registrar os resultados obtidos em pesquisas no campo da arte do Madonnaro e da Educação ao Patrimônio. O Madonnaro é uma técnica italiana de pintura sobre o pavimento, surgida no séc. XVI, que faz uso de materiais efêmeros como o giz, o carvão, o tijolo, etc. A Educação ao Patrimônio é um campo transversal de conhecimento (IPHAN, 2005) centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
MADONNARO: Gênero, técnica e linguagem pictórica
MADONNARO: Gênero, técnica e linguagem pictórica
Marcelo
Amaral Coelho1& Fabio de Macedo2
1. Discente do Curso de Licenciatura em Belas Artes,
ICHS/UFRRJ; 2. Orientador de Monografia e
Professor Associado do Curso de Licenciatura de Belas Artes, ICHS/UFRRJ
Palavras-chave: Efemeridade,
Madonnaro, Pintura.
Introdução
O presente trabalho surgiu a partir do contato com o
Madonnaro agregado à vivência acadêmica
em Belas Artes. Esse contato se deu no ano de 2013, quando selecionados para o
Programa Ciências sem Fronteiras (CAPES), tivemos a oportunidade de participar
de um curso de Madonnaro, em Verona
(Itália). Em 2014, por conta de um projeto PIBID/CAPES elaborado para ser
desenvolvido com alunos do EJA/Fase IX, em Seropédica (RJ), houve a necessidade
de aprofundar o conhecimento sobre o universo Madonnaro. Aprofundamento este que resultou no Madonnaro como tema
para a Monografia de conclusão de curso. A proposta então era uma pesquisa direcionada
para a possibilidade de aplicação da técnica da pintura sobre o solo como
instrumento de ensino de arte. Porém, à medida que acessamos novos
conhecimentos, a pesquisa foi ganhando um viés teórico e histórico no sentido
de investigar o Madonnaro enquanto
técnica, gênero ou linguagem. Para isso concorreu a constatação da inexistência
de material referencial quanto ao tema no contexto brasileiro. Foi então que
nos propomos a investigar a origem do culto mariano e sua iconografia. O que
nos levou a pensar a natureza e o entendimento da imagem no contexto cristão.
Feito isso, decidimos por fazer um levantamento da prática Madonnaro desde o início, no século XVI. Para argumentar sobre sua
consolidação como arte atentamos para importantes elementos que gravitam em
torno dessa prática artística. Uma vez reconhecida como arte, nos detivemos
sobre os procedimentos técnicos que envolvem a concepção de um Madonnaro.
Metodologia
A escassez de referências sobre o tema aumentou a
reunião de esforços para o desenvolvimento do trabalho. Recorremos às obras
especializadas, em língua italiana, que nos demandou um árduo trabalho de
tradução, proporcionado pela familiarização com o referido idioma. Esta tarefa
contou com contribuições de nacionais daquele país, amarrados pelo afã de
colaborar pura e simplesmente pela natureza cooperativa de amizades construídas
no contexto em que disfrutamos do intercambio acima mencionado. O texto capital
para o desenvolvimento da pesquisa foi o livro I Madonnari – annunciatori di anziane storie, de Felice Nalin, considerado
marco fundador das pesquisas referentes ao tema. A partir de entrevistas com vecchi madonnari em ação, Nalin escreveu
a história da prática pictórica. Para abordar o contexto paleocristão
recorremos ao historiador italiano Ennio Francia, buscando abrigo para repassar
o panorama histórico e estilístico do período. Outra referência em que buscamos
apoio foi Umberto Utro em publicação de Fabrizio
Bisconti. Nele encontramos as informações necessárias para um estudo
iconográfico da Madonna. Quando
resolvemos investigar a Iconoclastia, selecionamos Ernst Kitzinger, cujo estudo
privilegia
o contato com a obra como documento, cujas ideias não dispensa o contato com
outras áreas do conhecimento, mas se detém na leitura do monumento. As informações sobre os festivais de Madonnaro foram colhidas a partir de
textos reunidos na obra de Gabriela Annaloro et. al. Essa literatura especializada foi tratada dentro das ideias
que circunscrevem a teoria e história da arte na atualidade, apoiada no
pensamento de autores como: H.W. Janson, E. Gombrich, Jacqueline Lichtenstein,
Ralph Mayer e outros. Bem como Edson Motta, cujas formulações sobre técnicas
sobre procedimentos pictóricos foram de grande importância ao estudo em questão.
A pesquisa, portanto é de caráter bibliográfico, sendo estudo como corte
qualitativo.
Resultados e Discussão
A partir das análises perpetradas,
sustentamos a relevância do Madonnaro, pois
o mesmo se reafirma como “gênero”, “técnica” e “linguagem” pictórica, senão
vejamos: O Madonnaro pode ser
considerado um gênero de pintura em razão de sua marca característica, qual
seja: o tema. É inegável que a referência mariana na catacumba de Priscilla tenha sido capital para a
existência do Madonnaro – não à toa,
a prática tem este nome. A prática propõe um conjunto de procedimentos que lhe
proporcionam singularidade pictórica. Desde o início impregnado do esquematismo
bizantino, passando pela influência do Renascimento até o contato com o ensino
institucionalizado das academias, a pintura sobre o pavimento conservou alguns
procedimentos e alterou outros. O uso do
desenho, a aplicação da cor, a noção de proporção, o trato de claro-escuro e
demais recursos técnicos, foram incorporados à formação de seus artistas via
instituições formais de arte. O Madonnaro enquanto linguagem, dotado de
efemeridade e possuindo um conjunto de procedimentos, comunica uma ideologia. Antes
especificamente religiosa; atualmente, contempla a multiplicidade de discursos.
Tendo conhecimento de suas particularidades e recursos técnicos, é possível
explorar as potencialidades da gramática visual madonnara. Assim como a fala, o Madonnaro
é um fato social, externo ao indivíduo. Nasce e se perpetua nas relações
dinâmicas e interativas com o outro. É arte pública edificada numa tradição histórica
que ao mesmo tempo se assoma e dialoga com os paradigmas da arte contemporânea,
devido ao seu caráter público e efêmero. Não se desfaz da norma culta da
técnica, mas por conta das constantes atualizações, acaba por absorver
elementos inovadores.
Conclusão
Concluímos que o Madonnaro é
gênero; é técnica; é linguagem pictórica. Tal conclusão confere à prática uma
variedade de potencialidades a serem exploradas. Desde sua constituição de
natureza religiosa e artística, passando pelo aspecto turístico, cultural, bem
como sua potencialidade pedagógica. Este último vetor destaca a importante
função humanística e social do Madonnaro,
já que a arte tem como compromisso fundamental a mudança e a transformação da
sociedade, para o que a educação se constitui em ferramenta indispensável.
Dessa maneira, o Madonnaro se
constitui em ferramenta pedagógica a mais dentro do leque de possibilidades
artísticas. Seus procedimentos compreendidos pelo manuseio técnico que vão
desde os materiais mais alternativos, como giz, carvão e tijolo aos mais
sofisticados pastéis, todos não nocivos à saúde de quem os manipula, se
apresentam como apropriados a todas as faixas etárias. Com isso, o Madonnaro se demonstra como ferramenta
compatível a todos os níveis da educação e dentro do contexto educacional, as
possibilidades são amplas e inúmeras. A reflexão sobre a utilização do suporte
aponta para a conscientização quanto ao uso e preservação do patrimônio
cultural. Sua natureza religiosa, o aproxima da confecção dos tapetes de Corpus Christ, comuns em várias cidades
brasileiras, possibilitando, dessa forma, discussões em torno da
interculturalidade. Assim, acreditamos que este trabalho contribui para a
difusão de uma atividade em vias de reconhecimento acadêmico em terras
brasileiras.
Referências
Bibliográficas
ANNALORO,
Gabriella et al. Curtatone: I segni della Storia. Mantova
(Itália): Editoriale Sometti,
2014.
BISCONTI, Fabrizio. Temi di Iconografia Paleocristiana. Città del Vaticano: Roma,
2000.
FRANCIA, Ennio. Storia dell'Arte Paleocristiana. Milano: Aldo Martello
Editore, 1969.
JANSON,
H. W. O Renascimento/Introdução; O Proto-Renascimento
em Itália; O Renascimento Pleno na Itália; O Maneirismo e outras Tendências. In:
___________. História da Arte.
5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
KITZINGER, Ernst. Il
culto delle immagini: l’arte bizantina dal cristianesimo delle origini
all’iconoclastia. Lezioni 4. Trad. de Roberto Garroni. Scandicci (Itália): La
Nuova Italia Editrice, 1992.
LICHTENSTEIN,
Jacqueline. A Pintura – Vol. 2:
A teologia da imagem e o estatuto da pintura. São Paulo: Editora 34, 2004.
MAYER, Ralph. Pastel. In: ___________. Manual do Artista de Técnicas e Materiais.
Trad. Christine Nazareth. 2ª Ed. S. Paulo: Martins Fontes, 1999.
MOTTA, Edson e SALGADO, Maria Luiza Guimarães. Pastel.
In: ______ e _______. Iniciação à Pintura. Rio: Nova Fronteira, 1976.
NALIN, Felice. I
Madonnari. Annunciatori di anziane storie. Verona (Itália): Edizioni MG,
1982.
(Resumo expandido apresentado à III Reunião Anual de Iniciação Científica (RAIC) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em 31 de agosto de 2015).
sábado, 29 de agosto de 2015
PLANO DE CURSO APRESENTADO AO FINAL DA GRADUAÇÃO EM LICENCIATURA EM BELAS ARTES NA UFRRJ
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO
DE JANEIRO
DECANATO DE ENSINO DE GRADUAÇÃO
DEPARTAMENTO DE ASSUNTOS ACADÊMICOS E REGISTRO GERAL
DIVISÃO DE REGISTROS ACADÊMICOS
PROGRAMA ANALÍTICO
DISCIPLINA
MADONNARO
CRÉDITOS: 2.0
ORIGEM
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
DEPARTAMENTO DE ARTES
I. OBJETIVO
Capacitar
o aluno para compreender o fenômeno artístico do Madonnaro em seu contexto histórico, tendo como base a análise
crítica de textos relacionados com o tema.
Refletir
sobre os conceitos fundamentais das Belas Artes e sua função social, a partir
dos procedimentos e discurso contidos no Madonnaro.
II. EMENTA
Conceituar
o Madonnaro e sua organização.
Estudar
o Madonnaro como instrumentação
representativa, caracterizando-o como gênero, técnica e/ou linguagem.
III. PROGRAMA
CONTEÚDO
1.
NO PRINCÍPIO...:
1.1. O que é um Madonnaro?
1.2. A matriz iconográfica.
1.3. A formação iconográfica do
tema mariano.
2.
A IMAGEM NO PERÍODO ICONOCLASTA:
2.1. Antes da Controvérsia
iconoclasta.
2.2. Os primeiros cultos à
Maria.
2.3. O século VI e a
preparação para a Iconoclastia.
3. O
MADONNARO – O ARTISTA E SUA PRÁTICA:
3.1. O início Madonero: comércio e religião.
3.2. O artista madonnaro: um divulgador da fé cristã.
3.3. A geração Pós-Guerra:
uma nova estrada para o Madonnaro.
4. A CONSOLIDAÇÃO DO MADONNARO:
4.1. A cidade de Curtatone.
4.2. O Santuário da Beata Virgem Maria
das Graças.
4.3. A Feira de Curtatone.
4.4. O Encontro Nacional dos Madonnari: uma galeria a céu aberto.
5.
A PRÁTICA MADONNARO:
5.1. Veneza.
5.2.
O uso das referências.
5.3.
O suporte.
5.4.
A materialidade.
5.5.
Os procedimentos técnicos.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
ANNALORO, Gabriella et
al. Curtatone: I segni della Storia.
Mantova (Itália): Editoriale Sometti, 2014.
FRANCIA, Ennio. Storia dell'Arte Paleocristiana.
Milano: Aldo Martello Editore, 1969.
KITZINGER, Ernst. Il culto delle immagini prima
dell’Iconoclastia. In: _________. Il culto delle immagini: l’arte
bizantina dal cristianesimo delle origini all’iconoclastia. Lezioni 4. Trad. de
Roberto Garroni. Scandicci (Itália): La Nuova Italia Editrice, 1992.
NALIN, Felice. I
Madonnari. Annunciatori di anziane storie. Verona (Itália): Edizioni MG,
1982.
UTRO, Umberto. Maria. In: BISCONTI, Fabrizio. Temi di Iconografia Paleocristiana. Città del Vaticano: Roma, 2000.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BETTETINI, Maria.
Ombre di ombre. In: _________. Contro le
immagini: le radici dell’iconoclastia. Bari (Itália): Gius. Laterza &
Figli, 2006.
CENNINI, Cennino. Il
libro dell’arte. Editado por Franco Brunello. 3ª Ed. Vicenza (Itália): Neri
Pozza Editore, 1992.
GOMBRICH, Ernst H. Norma e Forma. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
JANSON, H. W.História
da Arte. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
LACOSTE, Jean. O
problema da Estética. In: ___________. A
filosofia da arte; trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1997.
MAYER, Ralph. Pastel. In: ___________. Manual do Artista de Técnicas e Materiais.
Trad. Christine Nazareth. 2ª Ed. S. Paulo: Martins Fontes, 1999.
MOTTA, Edson e SALGADO, Maria Luiza Guimarães.
Pastel. In: ______ e _______. Iniciação à Pintura. Rio: Nova Fronteira, 1976.
NAALIN, Felice. L'arte dei madonnari. Le tecniche.
Del segno e del colore. Firenze (Itália), Giunti Demetra, 2000.
RODINÒ, Simonetta Prosperi Valenti. Forme, Funcioni,
Tipologie. In: Il disegno. Forme,
tecniche, significati. SCIOLLA, Gianni Carlo (org.). Cinisello Balsamo
(MI): Silvana Editoriale, 1991.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
TESTEMUNHO HISTÓRICO
Testemunho histórico da pintura de estrada. Vídeo curto; apenas 29 segundos. Imagens da produção de arte sobre o pavimento na década de 1920, em Londres, na Inglaterra. Link: https://www.facebook.com/LadyScreever/videos/vb.1460524280925671/1475863116058454/?type=2&theater.
domingo, 5 de julho de 2015
SOBRE BREVIDADES...
"Cabeça feminina" (2013). Marcelo Amaral. Verona (Itália)
A efemeridade é uma das principais características do Madonnaro, a arte sobre o pavimento. O fato de existir e em pouco tempo deixar de fazê-lo torna essa arte tão especial. Assim é a vida. A brevidade da vida a torna tão estimulante. O escritor bíblico Tiago chamou a atenção: "Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece" (Tiago 4.14).
quinta-feira, 2 de julho de 2015
OFICINA : ELEMENTOS DA ARTE INDÍGENA MARAJOARA ATRAVÉS DA PRÁTICA MADONNARO
Aluna experimentando a materialidade do pastel por meio de um estudo a partir de Vicente do rego Monteiro.
Nessa oficina objetivamos fazer interagir conhecimentos da cultura popular brasileira e aquela estrangeira, estimulando a reflexão a partir do cotidiano, contribuindo com a construção da identidade e a criatividade dos alunos. A interação entre obras e história, através do contato com outras realidades culturais, pode torná-los conscientes das diferentes expressões de arte e seu valor dentro das sociedades.
Inicialmente apresentaremos aos alunos o Madonnaro, técnica artística italiana de representação de temas religiosos sob pavimento, que servirá de base para a produção dos alunos. Trabalharemos a linearidade e a cromaticidade com a apresentação de referências do universo Marajoara, primeiro por meio da reelaboração e depois através da observação. Permitindo aos alunos experimentarem as possibilidades da linha, das relações cromáticas e da criação. Os alunos terão oportunidade de se familiarizar com a técnica do pastel seco, estudando obras de Vicente do Rego Monteiro, onde observarão como o artista recorreu aos elementos da arte Marajoara para (re)interpretar temas clássicos e cotidianos. Após a fase de estudos, se dará início a etapa de criação tendo como ponto de partida o cotidiano do aluno. O último encontro será para a produção das obras sobre pavimento com o pastel seco. A área será isolada durante sua execução e depois de finalizados para uma breve exposição.
Por fim é esperado que os alunos consigam correlacionar o imaginário criativo próprio com os estudos das referências; refletir a própria realidade (re)afirmando suas identidades num contexto de intercâmbio cultural. Podendo, dessa forma, se posicionarem como indivíduos autônomos e conscientes de sua condição social.
Palavra Chave: Arte Marajoara, Madonnaro, Vicente do Rego Monteiro, Cultura Popular e Pastel seco.
Marcelo Amaral Coelho (Licenciatura em Belas Artes – UFRRJ )
Patrícia Karla Mendes Vieira (Licenciatura em Belas Artes – UFRRJ )
Priscila Marcondes da Silva (Licenciatura em Belas Artes – UFRRJ )
* Texto publicado originariamente em: ENALIC. Caderno de Resumos. Disponível em: http://enalic2014.com.br/anais/resumos.pdf. Acesso em 02 de julho de 2015.
domingo, 15 de março de 2015
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